Coração perdido

O meu coração anda triste

Lento se arrastando pelos cantos

Como uma criança desapontada

Que descobre que a infância não tem assim tantos encantos


O meu coração anda amargo

Chato, emburrado

Pulsa porque tem que pulsar

Não pula porque não pode pular


O meu coração anda miserável

Na rua, sujo, negligenciado

Implora por migalhas de esperança

Enquanto pouco canta, enquanto pouco dança


E chora

E chove

E não brota


O meu coração bota um escudo na frente

O meu coração anda descrente

Se torce

Se contorce

Se vira pelo avesso

Se lamenta pelo desprezo

Não diz

Se contradiz

O meu coração não se suicidou por um triz!


Não sabe mais o que é certo

Não sabe mais escrever versos

Se sente apenas mais uma estrela nesse tão grande universo

De um brilho vazio


O meu coração anda vazio

Digo, cheio de qualquer coisa ruim

O meu coração anda assim:

Como uma pena no meio de um tornado

É uma pena, mas o meu coração anda transtornado


Não vê

Não crê

Não quer viver


E como último ato

O meu coração lança desesperados desabafos

Aos seus pés

Sentindo uma dor pungente, latente

Sem compreensão:

O meu coração

Não sabe mais

Ser coração


Gumes

“Nunca ame ninguém

Caso na vida não queira sofrer”


“Sofra você

Por não ter amado alguém”


Foi o que me falaram

Foi o que falei


Fim

As vozes agora são poucas

As poucas, vazias


Nossas mãos agora são loucas

Loucas e sozinhas


As lágrimas agora são muitas

Muitas e amargas


Nossas vidas agora são outras

Outras, separadas


Metáfora da solidão

Brisa clara

Soprando as velas

No mar das águas claras

Por onde passam estas caravelas


Este mar, de que falo

Não estás neste anil azul que imaginas

Estás na tua aura

Na solidão que te domina


E se me perguntares o que posso fazer

Direi: nada! Deixarei tua caravela nesta água

Sem rumo, sem destino

Abandonado nesta tua vazia alma por onde nadas


Depois de ver escorrer teu pranto

Não penses que estarei contigo

Deixarei você e teu antigo navio

Navegando ali, sozinhos


Descoreografado

Te olho nos olhos

E não há entreolhar

Não há toque

Flor que desabroche


Porque eu olho dentro

Você olha fora

O seu é ligeiro

O meu demora


Vou embora

Pra outro lugar, outro canto

Outro encanto

Outro olhar


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