Flor à Iemanjá

Os meus pés não sentem mais o chão
Já não afundam como antes
Apenas sigo adiante ao fundo
Embalado pelo ritmo de sua canção


A melodia do azul das ondas
Quando se confunde com o bege
Gritando em brancas espumas
Faz com que eu, por hora, suma


E o maestro que rege
Esta orquestra dessincronizada
Já não habita aqui há tempos...
Tudo, então, como queiram os ventos


Nessa confusão de cores e sons
O mar invade cada vez mais o meu corpo
Por dentro e por fora...
E assim deixo


Deixo porque agora
Descobri que somente sendo
Inteiramente seu
Sou inteiramente meu


Eclipse

O brilho dos meus olhos
Foi tomado por uma escuridão

Não há mais amor no meu olhar
Porque não há mais amor no meu coração

Roseiral

Ela andava por entre o roseiral
Retirando todas as flores
Que a espetavam

Até que todas as pequenas dores
Que a incomodavam
Tiveram fim

Ela arrancou todas as roseiras pela raiz
E o que restou foi terra seca
Garganta seca de tanto chorar por uma grande dor

Ela não sabia que o roseiral era o amor

Boca

Sua boca é desenho detalhado:
Traços cuidadosos e grosseiros intercalados

Antíteses que se unem perfeitamente em seu lábio
E ali mesmo me perco, calado

Sua boca é cama aconchegante
Numa tarde fria para dois amantes

É convite ao mais prazeroso pecado
Irrecusável, de fato

Sua boca é vadia
Vagueia pelos becos como mulher da vida

Porque apesar de tudo, é incompleta
E só é inteira junto à minha

Quase um só

Eu e você
Juntos
Quase um só
Como nó
Que não se desata
Nada no meio
Além do desejo

Eu e você
Juntos
Almas gêmeas
Algemas

Corrente

Embora os ponteiros
Inúmeras vezes, tenham girado
Do relógio, que falo
Aqui dentro há um mundo estático

Há uma saudade dolorosa
Uma nostalgia lenta
Vagarosa
E, vagarosamente, mente

Distorce o tempo
Me prende ao passado
Faz com que não siga em frente...
Minha saudade é corrente

Não foi amor

Não foi amor
Foram apenas dois corpos suados
Abraçados
Beijos molhados
Sussurros ao pé do ouvido
Gemidos
Encontros marcados

Não foi amor
Foram apenas poucas noites estreladas
Mãos dadas
Brincadeiras displicentes
Desejos inconseqüentes
Gritos
Verdades que mentem

Não foi amor
Foi apenas um fogo
Que cedo se apagou

Os amores são como pássaros

Os amores tomam seus próprios caminhos
São como pássaros: livres
Não há gaiola que os prenda
Não há como mantê-los em um só ninho

Pássaros que cedo aprendem a voar
Por si mesmos
Vão longe pelo ar
E me deixam apenas os desejos

Desejo de te ver
De tocar
De você
Desejo de não te ver mais voar

Sei que vai
Pois os amores são como pássaros: livres
Sendo assim, sei que este amor é impossível...
Impossível de se apagar em mim

...

Se puder, volte a este ninho de vez em quando
Ao meu encontro...
...

(In)fidelidade

Não te acorrentei
Porque havia confiança
E, feito criança, por muito tempo pensei
Que você era (somente) meu

Eu, que agora sei que você mente
Deixo afundar meu amor em prantos
E, simplesmente, fico estático
Perdendo o encanto

No fim das contas
Por mais que a dor maior tenha sido minha
Eu ganhei e você perdeu
Eu ganhei o descanso de fazer, em vão, feliz a sua vida

a.mor \ô\ s.m.

O amor é uma via
Que, por hora, bifurca
Seguindo o mesmo sentido
Paralelamente
E se junta

Depois, novamente, separa
E volta...
E vai...
E volta...
Até que pára

Mas aí já não há amor
Não há sem separação
Porque o amor é uma via
Que, por hora, bifurca
Embora não bifurque o coração

Castanho e castanheiras

Entre tantas castanheiras
Verdes, alguns musgos
O seu cabelo balançava
Marrom junto aos uivos
Dançava no mesmo ritmo das folhas
E de outras coisas

Você ficou ali por muito tempo
Caminhando com um andar lento
Até sumir por entre o verde...
E para mim restou apenas ver-te

O vento

Está ventando muito aqui agora
Chega a me incomodar
Mas não vou embora
Deixo o vento você, de mim, levar

E por isto todo esse barulho:
Gritos que deveriam ser sussurros...
Mas tudo bem, uma hora vai cessar

A cama de ondas

Sob cobertores e contos
Ao som de Strokes no canto
Nosso entrelaçar tem sabor de nós dois

Confundir suas pernas com suas mãos
Vice-versa, em versos
Escuto não só o meu, mas o seu coração

E esse estado de não-estar
Em mim, digo, e sim em você
É como a sensação de... Sei lá
Talvez de como pela primeira vez ver o mar

E, assim, navego em nós
Não seguro, eu sei
Mas trancamos a porta
Então... Quem se importa?

Um verbo para superar

Eu poderia
Gritar
Chorar
Berrar
Derramar
Ajoelhar
Implorar...
...

Mas não

O ar me falta
E se quer saber
Eu quero ir
Sendo assim
Vou sorrir


Coração perdido

O meu coração anda triste

Lento se arrastando pelos cantos

Como uma criança desapontada

Que descobre que a infância não tem assim tantos encantos


O meu coração anda amargo

Chato, emburrado

Pulsa porque tem que pulsar

Não pula porque não pode pular


O meu coração anda miserável

Na rua, sujo, negligenciado

Implora por migalhas de esperança

Enquanto pouco canta, enquanto pouco dança


E chora

E chove

E não brota


O meu coração bota um escudo na frente

O meu coração anda descrente

Se torce

Se contorce

Se vira pelo avesso

Se lamenta pelo desprezo

Não diz

Se contradiz

O meu coração não se suicidou por um triz!


Não sabe mais o que é certo

Não sabe mais escrever versos

Se sente apenas mais uma estrela nesse tão grande universo

De um brilho vazio


O meu coração anda vazio

Digo, cheio de qualquer coisa ruim

O meu coração anda assim:

Como uma pena no meio de um tornado

É uma pena, mas o meu coração anda transtornado


Não vê

Não crê

Não quer viver


E como último ato

O meu coração lança desesperados desabafos

Aos seus pés

Sentindo uma dor pungente, latente

Sem compreensão:

O meu coração

Não sabe mais

Ser coração


Gumes

“Nunca ame ninguém

Caso na vida não queira sofrer”


“Sofra você

Por não ter amado alguém”


Foi o que me falaram

Foi o que falei


Fim

As vozes agora são poucas

As poucas, vazias


Nossas mãos agora são loucas

Loucas e sozinhas


As lágrimas agora são muitas

Muitas e amargas


Nossas vidas agora são outras

Outras, separadas


Metáfora da solidão

Brisa clara

Soprando as velas

No mar das águas claras

Por onde passam estas caravelas


Este mar, de que falo

Não estás neste anil azul que imaginas

Estás na tua aura

Na solidão que te domina


E se me perguntares o que posso fazer

Direi: nada! Deixarei tua caravela nesta água

Sem rumo, sem destino

Abandonado nesta tua vazia alma por onde nadas


Depois de ver escorrer teu pranto

Não penses que estarei contigo

Deixarei você e teu antigo navio

Navegando ali, sozinhos


Descoreografado

Te olho nos olhos

E não há entreolhar

Não há toque

Flor que desabroche


Porque eu olho dentro

Você olha fora

O seu é ligeiro

O meu demora


Vou embora

Pra outro lugar, outro canto

Outro encanto

Outro olhar


Um paradoxo para a minha vida

O melhor da vida é soltar:

O riso

A pipa

Os pássaros

Que voem sem fim


O melhor da vida é prender:

A respiração

De adrenalina

Você

Junto a mim


na.mo.ro \ô\ s.m.

E para quem espera do namoro
Todo o amor que se possa, neste mundo, ver
Vai acabar como quem de decepção se lamenta

Namoro é uma amizade colorida
De vermelho
Com uma pitada de pimenta

Este alguém é você, pai

Se nesta vida quem entra e sai

Deixa alguma marca

Arranhada levemente na minha história

Em memórias vividas em dias e noites

Não mereceu meus sorrisos e açoites


Mas se nesta vida quem entrou e saiu

Deixando alguma marca

Detalhadamente cravada dentro de mim

E no seco do meu jardim é a chuva que cai

Este alguém é você, pai


Sem hora

“Ora, senhora

Não está na hora?”


“Hora de quê, criança?”


“De viver sua infância”


“Não foi assim que minha vida quis...”


“Mas ouvi dizer que nunca é tarde para ser feliz”


“Um dia você verá que não é bem assim...

Na vida tudo tem o seu fim”


Ampulheta

O tempo para:
Por areias verticais separados
Um de cada lado somos
Dunas de cronologia
Desertos desertados
Pela pausa, tal desatina

Quando o amor não derruba todas as barreiras

Para no inverno nos mantermos quentes

Talvez o fogo aqui dentro não seja suficiente


E por mais que fechemos as janelas

Continua ventando frio lá fora


Nem tudo o que imaginamos, de fato, era...

Suponho que um de nós tenha que ir embora


Daqui não consigo seguir adiante

Porque descobri que te amar não é o bastante


Bobagem (Não adianta...)

Você vira o rosto pra vida

Esconde-se sob o cobertor antes de dormir

Sabendo que o escuro está, também, à luz do dia


Não adianta negar o passado

Correr do presente

Adiar o futuro


Não queira parar o mundo

Os ponteiros do relógio...

Eles não param para que você tenha coragem


Vai, deixa de bobagem


O medo de Mariana

Mariana tem medo como toda criança

Como toda criança que no balanço balança


Mariana tem medo e nunca quis

Que o seu medo fosse o de ser feliz


Mariana tem medo, mas não é menina

O medo de Mariana é de mulher que ama


Diga-me o que é amor e lhe direi o que é sofrer

Nas mãos dadas sempre há um mistério

Seja fidelidade ou adultério


Guardo na memória fatos

Imersos em pensamentos


Guardo numa caixa fotos

Desbotadas entre dores


O segredo não é encontrar o amor da sua vida

Mas sim, uma vida de amores


Suicídio 3

Em algum instante abriu-se um vazio

Aqui, dentro de mim


E foi correndo por meu sangue

Tirando, além de meu corpo, meu indolor fim


Pois antes tivesse acabado logo em esquife

Ou jogado entre lamas, num mangue


Mas não; em tom de marfim estatizou-se meu rosto

Recebendo as lágrimas de um pungente desgosto


Então aos prantos fui deixando-me sangrar

Por dentro, é verdade, mas o suficiente para me matar


Palavras de uma menina que, dentre outras coisas na vida, não tinha olhos

Entre o breu e a nitidez

Há um mundo nosso

(Mais seu do que meu)

Que nos ensina alguma vez:


Não se contente em tê-los

Digo dos olhos, meu caro

A verdadeira cegueira

É enxergar e não ver


Pena não ser um caso raro


Fios de rubi

Falo sobre
O fogo que arde em meu coração

A veia que de amor dilata

Em crepúsculo de uma tarde no verão


Mas de todos os vermelhos

(Não importando os tons)

Embaraço-me em seus cabelos

Onde já não sou mais são


Suicídio 2

Das coisas de que falo
Uma não é a esmo:
O meu erro foi te amar
Mais que a mim mesmo

Castelo de areia

O que o tempo faz

O vento sopra

Como um castelo na areia

Que se desfaz em maré cheia


Não quero o nosso castelo

Na praia ou onde bate o vento

Vou construí-lo em meu coração

Onde possa estar seguro aqui dentro


Pra quê?

Pra quê fingir que tudo deu certo?

Pra quê acreditar que algo de bom ficou?


Não há palavras suas que meçam seu ego

Se ele o tempo todo mudou


Pra quê se lamentar agora?

Pra quê tentar de novo? Me diz...


Você vai voltar e vai embora

E tudo voará ao vento como pó de giz


Pra quê dizer aos suspiros que ainda me ama?

Pra quê chorar mais uma vez?


Pise, rasgue e jogue nosso amor na lama

Desculpe, mas eu já voltei de vezes mais de três


Agora me diz...

Pra quê?


Liberdade

Quando que se pode gritar
E deixar o silêncio calado?

Quando que se pode beijar
E do seco molhar os lábios?

Quando que se pode mudar?
Até quando se carrega um fardo?

Quando que se pode separar
Pessoas e sílabas: ditongo ou hiato?

Quando que se pode mostrar
A pele pra sair do anonimato?

Quando que se pode amar?
Quando vão deixar a hipocrisia de lado?

Tatuagem

Cada lágrima se transformou em tinta
Em desenho de cicatriz fez-se uma tatuagem
De uma ferida tão de mentira quanto de verdade

Suicídio

Joguei meu amor aos sete ventos

Joguei meu amor aos sete mares

Não devolva-me se ao acaso encontrares


Eu sei que haverá alguém

Quando os meus pés não tocarem o chão

Quando a insanidade não me deixar

Distinguir o sim de um não

Eu sei que haverá alguém


Quando o coração estiver na boca

Quando as lágrimas descerem pelas bochechas

Deixa... minha despreocupação não é à toa

Eu sei que haverá alguém


Quando a tristeza apertar

Quando a saudade despertar

E tomar todo o meu corpo numa noite qualquer

Eu sei que haverá alguém


Quando não houver mais claridade

Quando os caminhos estiverem tortos

E minha pele não corresponder à minha idade

Eu sei que haverá alguém


Quando eu estiver com algum problema

Quando para ele não houver solução

E, assim, precisar de sua mão

Eu sei que haverá alguém

Eu sei que haverá minha mãe


Amadurecer

Semear ao avesso:

De fora pra dentro


Fotossíntese de pensamento

Absorção do próprio tempo


Planta que imóvel

Viaja pelo mundo


Muda

Mudanças miúdas


Planta que verde

Tem cor de tudo


Muda

E permanece muda


Folhas viram selva

Tronco que era talo


Vendo a vida ao avesso:

De cima pra baixo


O poeta escreve palavras; o leitor lê poesia

Um dia me perguntaram:

“Você se arrepende de

Alguma poesia que já escreveu?”


Eu disse:

“Quem tem que responder isso

É você, que é leitor, e não eu”


Rei

Quando você perceber que o mar
Está no copo d’água que você bebe

Que as maiores riquezas da humanidade

São guardadas a sete chaves no bolso da plebe


Verá que nesta vida pode-se ter tudo

Tornando-se rei do seu próprio mundo


Cela

Você pode até negar

Você pode até correr


Mas não há como fugir

De algo dentro de você


Um espetáculo de mágica chamado Vida

Quando o coelho saiu da cartola

Tudo o que não era mágico

Esvaeceu-se tão rápido

Que toda mágica teve sua hora


Enquanto a mulher levitava

Outras entravam em caixas com espadas

Mas o que mais me surpreendia

Era a platéia fascinada aplaudindo

Sem saber que também fazia mágica todo dia


Verdecer

Cor de relva entre estações

Do verão ao outono

Os pigmentos antes em sono

Assumem formas poéticas de Camões


O arco-íris cede sua quarta cor

E colore toda sua íris

Formando luas gêmeas

Verdades verdes e sêmeas...


Eram os seus olhos


Aves, flores e borboletas

Já deixei isso aqui muito escuro

Está na hora de alguma luz

Não há mais pássaros cantarolando no muro

Nem aquela flor que me seduz


Já deixei essa grama muito seca

Está na hora de alguma água

Talvez por isso se foram aves e borboletas

E as flores não são flores, são nada


Já abri a cortina e reguei o jardim

Talvez disso precisasse minha vida

Talvez isso seja o melhor para mim...

Agora espero as primeiras aves, flores e borboletas


E agora?

Sinceramente

Em minha opinião

O que não faz bem para um poeta

É a paixão


Falo sério

Não é brincadeira

Quando ama só faz poesia

Para a pessoa com quem se deita


Não há sequer outra inspiração

Os versos são clichês

Aquela coisa, sabe:

“Eu amo muito você!”


Ah, faça-me o favor!

Quem diz que o amor

Inspira um poeta

Só pode estar de gozação...


Mas parando para pensar...

Neste momento não me recordo

De nenhuma sensação mais agradável

Do que a de amar


E agora?


Prosopopéia

Onze anos de idade

Menino no centro

Da cidade onde havia ela

Pálida e outros byronismos


Súbito beijo a deu

Foi a primeira saliva

Trocada de sua vida

Rala às oito bem cedo

Ralam lábios no concreto

Exata hora de alegrar

Verde em volta: canteiro


O muito escapou pelo nariz

Era água da estátua chafariz


Vagalumes

Na escuridão
Tudo o que brilha

São vagalumes


Não são fatos

Luzes
Fitas

Fotos

São vagalumes

Vulgo, pensamentos


Brilham um por um

Num piscar

Eterno e lento


18 horas

Quando saíam do trabalho

Olhando para o pé

De tamanha timidez, ela perguntava:

“Aceita tomar um café?”


A pergunta era feita todo dia


“Hoje... hoje não dá

Acontece que... estou cansado”

Mas ele não percebia

Quando seus próprios olhos brilhavam...


Perdeu o amor da sua vida


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