Seis por meia-dúzia

E pra ter que te esquecer
Vou mudar de endereço e até de identidade.
Vou trocar você pela saudade.

Versos para Marina

Quem há de ter teu mundo pintado
Com tinta cor-de-onda,
Quem foste mulher de ciranda
Na bege areia e Sol ao lado,
Sabes que ela é metade animal
E a outra é planta.

Sabes que veio ao dia
Para o amarelo sábio de tua imaginação.
Ela colori teu mundo com as duas mãos
Em teu futuro e eterna infância nostalgia.
Estes versos são para ela:
Mulher Marina; Marina menina.

Flor-paradoxo

Naquele jardim havia
uma flor tão feia.
As pétalas disformes
sambavam ao vento
com passos desconsertados
conforme ia chovendo a todo tempo.

As gotas machucavam suas folhas.
Ia descolorindo o verde musgo
e a tinta escorrendo pelo jardim
inundou em mim o desajeitado imundo.
E no segundo piscar de meu olhar
A flor fez-se tão bela em seu lugar.

As gotas latejavam nela,
no seu caule fino.
Era tão frágil, franzino.
Aquela feia flor era tão bela
que trouxe-a para ti (e mim), pois acredito
em nosso amor tão bonito.

Naquele jardim havia
esta flor tão feia.
Naquele jardim havia
esta mesma flor tão bela.
Como havia de ser, que seja,
eu me apaixonei foi por ela.

Vendedor de alegria

O pranto naquela brancura
de um menino tão só,
tão desiludido
sem nenhuma ternura.

Veio então um senhor,
deu-lhe a mão
e um sorriso.
O menino, do chão, se levantou.

Perguntou ao velho quem ele era
com um passo que se afasta.
Ele respondeu que era um vendedor de alegria,
mas que para ele fazia de graça.

O mochileiro

Na mochila dele tinha tudo.
Tinha amendoim,
biscoito e livros
sobre a América do Sul.
Tinha até alecrim.
Também um binóculo e um caderno
de capa azul.

Na mochila dele tinha tudo.
Tinha sua viagem,
férias e carnaval.
Seus beijos, abraços e alegrias.
Ali tinha toda sua bagagem:
Roupas, perfume, eticétera e tal.
Sua lágrima, seu sorriso e sua nostalgia.

Na mochila dele tinha tudo.
Na mochila dele tinha o mundo.

Mariazinha e José

Vi umas fotos e
Uns porta-retratos
Vazios.

Não tinha rosto nem tinha imagem.
Sentir-me tão só;
Senti minha felicidade sumir
Virar pó.

Não lembrei mais nada.
Fechei os olhos,
Abri os olhos.
Escorreu uma lágrima.

Aonde foi parar minha infância?
Aonde foi parar meu passado?
A ciranda e o pique. Mariazinha e José
Por que estão tão calados?

Pensei e calei.
Com um lápis desenhei
Marizinha e José na ciranda.
Meu presente agora é o passado
Girando, girando e girando
Até um futuro com fotos de algumas crianças.

O que eu precisava,
Era mesmo,
De um pouco de esperança.

O Anjo e o Demônio

Foste o dia em que o Amor
Contornava molhados lábios
E suadas faces! Foste o dia em que
Amei, amo e nunca sabeis

Se não és assim tão imenso
Por que pensaste em ti toda hora
E sentiste teu aroma em minha pele?
Por que choraste quando foste embora?

Sabeis que com amor és hora de
Dizer-lhe que ando em hermetismo:
O calor de minhas veias quer
Enquanto minha sanidade, nem um beijo a mais, sequer

E sentiste que agora não seja Tempo
De entregar-me a tua graça.
Desejo não me falta;
O medo do sofrimento também não me escapa.

E viveis dessa forma
Sabendo que se tal aceso Fogo ficará
Dentro e seguro, és certo
Que possuo a razão de meus versos.

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