Semis

Estava pelo meio
Veio você e me completou
Deu-me luz e fiquei cheio
Cheio de amor

Tudo durou tão pouco tempo
Eu nem tive tempo
De dizer que junto a ti passa tão rápido o tempo

Onde está a metade da minha Lua?
Você roubou de mim, eu sei
Você tirou de mim, assim
Você levou minha alma, foi sim

Agora sou crescente minguante
Agora sou um descrente
E nada é como antes

Sem você não dá
Pra continuar no céu
Estou ao meio
Não dá porque sem você eu não sou inteiro

Onde está a metade da minha Lua?
Estou aos semis
Semicírculo
Semi-alma
Sem você

Notívago

Uma
Duas
Três
Quatro horas

Luz acesa
Televisão
Computador

Incerteza
Solidão
Dor

Antolhos

Meu pranto no canto.
Escuto o canto no meu canto.
Espanto-me, entretanto
Com o teu encanto.
Em canto em canto
Escuto o mesmo canto.
Encantei-me e tanto.
Só vejo você no meu mesmo canto
Sem aquele mesmo pranto.

Tempo

Fitei o relógio,
Senti o tempo.
Silencioso, porém notório,
Correndo contra o vento.

Ponteiros girando.
Coração parado;
Procurando no passado
Sentimentos abandonados.

As horas são traiçoeiras.
Ora são horas, ora não.
Feiticeiras.
Fazem de mim histrião.

O tempo teima
Deixar-me viver.
O tempo é veneno
Que me faz sofrer.

Orquestra

Noite sozinha.
Noite muda.
Noite sem vida.
Noite profunda.

A Lua, maestrina,
Não existe.
Abandonou a orquestra.
Está morta no mais sombrio esquife.

Estrelas perdidas.
Sem luz, sem canção.
Desaparecem despercebidas
Com dor no coração.

Noite em que tudo começa
E tudo termina.
Menos a solidão.

Retratos de um cotidiano cinza

Olhos abertos
Parede xícara cigarro
Cinzas
Garagem
Carro prata
Céu nublado
Asfalto
Trabalho
Arquiteto lápis borracha
Grafite
Estacionamento
Carro prata
Cigarro copo parede
Cinzas
Olhos fechados

Pôr-do-sol

Pés na areia
Meio molhada
Meio seca
Imensa por inteira

Vem uma
Vai uma
As ondas tocam meus pés
Na areia molhada por inteira

Eu vejo o sol indo
Eu vejo o sal vindo
As ondas tocam meus pés
Na areia salgada por inteira

E nesse pôr
Eu me ponho inteiro em você
Daqui só irei embora
Se você comigo for

Crua

Desta mesma flor que brota minh’alma
Trago-te o aroma do meu querer
Que em cada pétala
Em cada espinho me faz
Lembrar de ti no jardim

Desta mesma canção que escrevi para ti
Tiro das letras, da melodia
Rimas que rimem com tua voz
Em cada nota desafinada
Desatina a saudade, assim, tão veloz

Desta mesma luz que lhe dou
Para iluminar teu caminho até mim
Enxergar-me-ei junto a ti
No feixe de tua pele, teu braço
No feixe do entrelaço

Neste mesmo agora
Em que tal flor brota
No feixe do ritmo da melodia da canção
Eu te quero sem aroma, sem som, sem luz
Eu te quero assim: crua em mim

Marias e Anas (Aquário)

Sentada no chão
Colorida de carvão
Pranteia de fome
Chora por não ter nome

Estende o punho
A cada terno que passa
Alguma moeda, alguém no mundo
Pode vê-la na massa?

Está com um semblante de vários
Olha-se no reflexo de um vidro
Sente um imenso vazio
É só mais um peixe no aquário

A menina e o balanço

Laço cor-de-rosa
Corrente cor-de-sol-e-chuva
Pra frente
Pra trás
Diariamente
Laço cor-de-sol-e-chuva
Corrente cor-de-rosa
Pra frente
Pra trás
Confundindo-se
Eternamente

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