Sem saber

A cidade foi enfeitada
Com tiras de tecido colorido
Luzes, flores e sorrisos

Eu só não sei o porquê e
Saber nem preciso

A beleza está nisso

Ensaio

Acho que não adianta fazer mais nada

Pode mudar o cenário
Trocar o figurino
Suas falas, a posição no palco...

Mudar o seu jeito de expressar
A hora que você vai entrar
Suas caras, a forma de dizer...

Acho que não adianta fazer mais nada
O problema aqui é você

Mar de Abrolhos

Os meus olhos estão cansados

Cansados de serem olhos

Roxos, tristes e lacrimejados


Os meus olhos estão cansados

Cansados de serem olhos

Tão molhados quanto Abrolhos


Os meus olhos estão cansados

Cansados de serem olhos

Cansados de serem olhos...


Cansados de serem...

Cansados...

Can...


O amor não se acha

Eu procurei
Aquele fogo que queimou
Em outros olhares
Os beijos, em paladares

Eu procurei
Aquele arrepio que estalou
Em outros sussurros
As declarações, em muros

Nada encontrei
E por agora isso me dói

Somente por agora
Pois sei que o amor não se acha:
Constrói

Qual rumo seguir agora?

Às vezes são horas

De unhas ruídas

Manhãs com demora

Cabeça com ruídos


“Qual rumo seguir agora?”

É coisa nascida alada:

Vai voar...

Algumas decisões já estão tomadas

Transposição

Existe um perfume

Que agora deita

Sobre minha pele


É seu, mas assume

O meu e minha derme


E assim deixo


Trístico triste

Três versos podem

Trazer nuvens carregadas

Trovões e chuva de lágrimas


À primeira vista

Entre tantos becos

Entre tantos olhos

Entre tantos perfumes

Entre tantos beijos

Entre tantos rostos...

...

Entretanto eu não me apaixonei


Pirraça

Quando acaba o amor

Eu queimo as cartas

Soco paredes; sinto dor

Rasgo os bilhetes

Jogo no lixo os presentes

E esqueço que escrevi uma canção


Faço isso tudo

Porque tudo isso

Não posso fazer com o meu coração


Hipnose

O seu olhar embala uma música

Que nossos corações dançam a dois

O seu olhar me envolve de vezes uma dúzia

E me perco nele, pois

O seu olhar me lança uma dúvida

Decifrá-lo deixo para depois


De dentro pra fora

Como saber se

Conhecemos o mundo

Se sabemos fundo

Sobre pessoas que nos cercam


Como cercar certezas

Viajar pelos extremos

Revirar a mesa e sair ileso

Se não conhecemos a nós mesmos?


Tapete latino

Solo frio

Solo en el frío suelo todo el día

Consuelo por cima

Con el suelo és mi vida

Consolo por baixo


Ao mundo

Apreensão

Força

Dor

Grito

Força

Dor

Grito

Força

Força

Força

Buá

Sorriso


Ampliação


Réplica

Ela perguntou:

Você tem certeza disso?

Disse:

Certezas não existem

...

Você tem certeza disso?


À flor da pele

Tomou-se de ódio
Nem mais um pio
Só mais um ópio

180º

Eu quero ver o mundo de outro ângulo
Que cachoeiras subissem e
Fogos de artifício descessem
Eu quero outro artifício
Outros vícios que não sejam o de sempre

Eu quero um capuchino à tarde
Cantar um hino que não seja Brasil
Ler outra manchete que não seja Brasília
Morar numa ilha, revirar meu baú
Eu quero outra música que não seja Raul

Eu quero ver o mundo de outro ângulo
Cansei do samba; dê-me um tango

Moça de praia

Olha lá aquela moça
Que vem com um rebolar

Olha lá aquela moça
No sol a bronzear

Olha lá aquela moça
Indo embora deste lugar

Olha lá aquele moço
Sentado na areia, a espera voltar

Amanhecer da cidade

Há um silêncio gelado na alameda
Tudo o que se ouvia era o bater dos sapatos
No concreto da calçada branca de noite nevada

Mas sei que logo virão as buzinas e os sinos
Logo virão os ruídos e as sinas
Sei que logo virá o dia

Haverá um grito gelado na alameda
E ainda no frio que seja
A cidade acorda com o brado que boceja

Homo burrus

Mãe mata filha
Filho mata pai
Vamos todos para a guilhotina
E o amor? Para onde vai?

Adolescente enforcada com lenço
Idosa refém
Não assaltaram o bom senso
Vivemos num mundo sem

Caça predatória
Árvores derrubadas
Existe escapatória?
As mãos estão dadas?

Criança em abandono
Violência nas margens
Quem é esse ser que se diz humano?
Quem é esse homo que se diz sapiens?

A riqueza maior

Libertam pétalas
Ostras, pérolas

Flores em primavera
É riqueza maior
Que riqueza que brilha:
É momento, é vida

Casulo

De rupturas sonoridades
Fez-se no escuro, puros
Prantos que ardem

Dolentes por essência e
Essenciais em cada dor
Banham minh’alma,
Abrem crisálida
...
E voou

Vital

Algumas palavras são
Letras apenas; outras tão
Mais que isso
Por vezes de uso cediço

Cedendo ou não
Escrevo-as com minha mão
E dentro a certeza disso:
Sem as palavras eu não vivo!

O pianista

Tocava um piano em suas costas
Seu choro e suas notas
Gritavam a verdade em sua canção
Uma noite tão alto foi
Que o piano agora está no chão

Esperança

Há uma luz no fim do túnel
Há uma boca do fogão acesa
Há um sol no meio do universo
Há um verso no fim da certeza

Cadeira de amargura

Árvores desnudas
Folhas desbotadas ao solo
Não mentem nunca:
O outono carrega-me no colo

Sentado na varanda
Numa cadeira de amargoso
Coloco no bosque minha esperança
De vê-lo voltar por entre os bordos

Árvores desnudas
Neve sobre o solo
Não mentem nunca:
O inverno carrega-me no colo

Sentado na varanda
Numa cadeira de amargoso
Retiro do bosque minha esperança
De vê-lo voltar por entre os bordos

Olhos

Se você soubesse o quanto seus olhos
Fazem meus olhos olharem sempre
Os seus olhos brilhando como olhos
De quem ama meus olhos
Ah! Os meus olhos saltariam de alegria
Palpitariam seus corações de olhos
E nossos olhos olhariam nossos corações
Palpitando enquanto nos olhamos

Nas estrelas?

Deves ser forte como um Touro.
Se fores de Capricórnio,
prepare-se para o casório.

Encare o mundo sem nenhum destinatário
e cumpra sua função de Sagitário.
Durma em quaisquer aposentos, Gêmeos!

Se tu és de Aquário,
serás feliz, desejado.
Viverás com tua amada um centenário.

Virgem é viagem.
Idas e vindas.
Dinheiro, se fores de Libra.

Peixes?
Sorte.
Felicidades em feixes.

Ah o Escorpião!
Se entregando à paixões, amores;
assim como o Leão.

Viverás nos ares se fores de Áries.
Sonhos e romances
se por acaso fores de Câncer.

E para enxergar tudo isso nas estrelas,
nem com um binóculo.
Mas bem que eu queria acreditar no horóscopo!

Amizade

Quando teu desenho estiver descolorido
E tua roupa desbotada, aos bugalhos,
Chame-me, pois irei
Com umas cores e retalhos.

Mesmo que de nada adiante,
Só de estar ao teu lado
Meu mundo colore e conserta-se.
E, calado, deixo de ser figurante.
Passo a ser teu amado.

O nome disso é amor e lealdade
Juntos em apenas um sentimento:
Amizade.

O caranguejo na piscina

Na beira da piscina
Com roupa de banho
Um mergulho ia dando
E vi o bichano na quina

Fiquei ali pensando:
Cairia naquele azul mesmo?
Se o amarelo nadando
Nadaria até mim, o caranguejo

Rosinha e seus balangandãs

Rosinha e seus balangandãs
Balangandava suas coisinhas
Passando na rua todo dia

Rosinha e seus balangandãs
Balangandava e vendia
Suas coisinhas em cada esquina

Rosinha e seus balangandãs
Balangandando e ambulando
Deve balangandar por toda vida

O lago

Deste azul que passa
Neste lago imenso
Por pedras rasas
Corre por todo sendo
Meu amor águas fundas
Fundo tanto que inunda
O lago e sente:
Águas estas sempre
Estarão ao teu lado

Entre os dedos

Com minha palma
Pego areia da areia da praia
Deixo escapar entre os dedos
Como uma cachoeira cai no rio
As águas voltam ao seu leito
Na vida tudo volta de algum jeito

A certeza de Mariana

Às vezes as palavras
Abandonam o poeta

O lápis na ponta dos dedos
Tremem sedentos sabendo
Que nunca se escreve em linhas retas

Às vezes as palavras
Abandonam o poeta

E mesmo sem as letras no papel
A inspiração há de sempre haver
Numa entrelinha secreta

O canto do sabiá (O sabiá de Irapujá)

Sabes que o sabiá sábio sabido
Sabia dos sinos e sinais
Sinais e sinos sinuosos

Cantava no canto
E encantava tantos com
Seu canto a encantar

Em Irapujá ia indo à igreja
Itu e Itaiá iam à idem igreja de lá
Iam índios Itus e índias Itaiás escutar

Sabem que o sabiá sábio sabido
Cantava de domingo aos mingos
Nos sinos da Oca Nossa Senhora de Irapujá

A casa, a palmeira e a chuva

Aqui chove muito
A casa amarela deixa de sê-la
Gotas d’água tiram dela
A pele cor sol que a coberta

Aqui chove muito
A palmeira dança
Com cabelos verdes ao vento
Alguns fios caem com água tanta

Aqui chove muito
Eu vejo a casa e a palmeira
O que significa para mim eu não sei
Mas a imagem ainda está na minha cabeça

Aqui (ainda) chove muito

A tristeza do guepardo

O guepardo tem tristeza que aparenta.
A lágrima preta sempre no amarelo da face
exala um olhar de dor forte e lenta.

A savana assobiando ao vento me contou:
Busca correndo quem ama e chora
pois, noutro lugar, está seu amor.

Choro da noite

Agarrou-se ao travesseiro
E o encharcou de tristeza
Até o Sol nascer por inteiro

Todo poeta

Todo poeta gosta de sofrer e de amar
É como um combustível para as letras
É como uma reta para as linhas
Todo humano gosta mais de amar do que sofrer
Com o poeta não podia ser diferente
Mas para o meu amor existir eu preciso de você
É como um combustível para a alma
É como uma reta para o meu andar
Todo poeta gosta de amar e de amar

Cabra-cega

Com os olhos vendados
Sigo sua voz

Com os olhos fechados
Entrego-me a nós

O cachorro da minha rua

O cachorro da minha rua
Tinha um ar de tristeza
E os olhos cor da uva
De chorar tanto ficou seca

O cachorro da minha rua
Ali sentado todo dia estava
Esperando-me com esperança muda
E latia quando eu passava

O cachorro da minha rua
Era um vira-lata apaixonado
Que ladrava com sua feiúra
Entre calçadas e cabisbaixo

O cachorro da minha rua
Amava-me que eu sei
Dormia sozinho embaixo da lua
Sonhando que voltei

O cachorro da minha rua
De me ver tinha sede
E quando saciava tal vontade sua
Eu descobria que era ele

O cachorro da minha rua
Sou eu ao certo
E lhe digo de uma forma nua:
Você é quem escreve estes versos

Mofo

Negro

Abro a janela

Sol
Luz
Cores

Fecho a janela

Vida

História de um lugarejo

Sente a neblina escura que está aqui.
Nesse lugarejo não existe nada além
da brancura acinzentada que vem dali.

Veja as flores murchas,
as árvores com rachaduras
e a grama seca e dura.

Escute a canção do pássaro negro,
do corvo que avisa com assobios
que está longe o seu desejo.

Sente a neblina.
Veja as flores.
Escute a canção.

É a sua última chance.

O lugarejo vai ganhar vida.
Já já começa a chover tinta.
A nuvem-aquarela está vindo.

Agora me dê um sorriso.
Nos dê um sorriso.
Nosso lugarejo, então, é lindo.

Unhas

Enquanto tudo passa lá fora
eu continuo aqui roendo minhas unhas
e me perguntando a todo tempo:
que diferença faria se as roesse do lado de lá, agora?

A poesia é uma escultura

Nesta poesia não vai estar escrito
O que o poeta quis escrever.
Vai estar escrito o que você quiser.

Escreva de trás pra frente,
De frente pra trás, tanto faz.

Só não tente palavras cuspir.
O verso você tem que esculpir.

Cigana

Ela não tem espaço.
Vive de quadrado em quadrado.
E com uma dança ou um compasso
Gira em torno de sua estrada.

A cigana com rendas vermelhas
Pensa que é garota de fantasia.
A cigana com suingue passista
Pensa que o carnaval é todo dia.

O todo dia é sua estrada;
É seu compasso e sua dança.
É o dormir de barraca em barraco;
É o suor na face branca.

A cigana com jeito menina
Pisa na terra e levanta vida.
Sabe que sorrir felicidade de cigana
Muda o mundo e não se engana.

Você

Eu descobri que minhas poesias podem ter inspiração
Eu senti que meu dia passa nada em vão
Eu sei que posso ser mais eu sendo seu
Eu vi que no negro do meu fechar de olhos há uma luz
E eu pude perceber que essa luz é você.

Seis por meia-dúzia

E pra ter que te esquecer
Vou mudar de endereço e até de identidade.
Vou trocar você pela saudade.

Versos para Marina

Quem há de ter teu mundo pintado
Com tinta cor-de-onda,
Quem foste mulher de ciranda
Na bege areia e Sol ao lado,
Sabes que ela é metade animal
E a outra é planta.

Sabes que veio ao dia
Para o amarelo sábio de tua imaginação.
Ela colori teu mundo com as duas mãos
Em teu futuro e eterna infância nostalgia.
Estes versos são para ela:
Mulher Marina; Marina menina.

Flor-paradoxo

Naquele jardim havia
uma flor tão feia.
As pétalas disformes
sambavam ao vento
com passos desconsertados
conforme ia chovendo a todo tempo.

As gotas machucavam suas folhas.
Ia descolorindo o verde musgo
e a tinta escorrendo pelo jardim
inundou em mim o desajeitado imundo.
E no segundo piscar de meu olhar
A flor fez-se tão bela em seu lugar.

As gotas latejavam nela,
no seu caule fino.
Era tão frágil, franzino.
Aquela feia flor era tão bela
que trouxe-a para ti (e mim), pois acredito
em nosso amor tão bonito.

Naquele jardim havia
esta flor tão feia.
Naquele jardim havia
esta mesma flor tão bela.
Como havia de ser, que seja,
eu me apaixonei foi por ela.

Vendedor de alegria

O pranto naquela brancura
de um menino tão só,
tão desiludido
sem nenhuma ternura.

Veio então um senhor,
deu-lhe a mão
e um sorriso.
O menino, do chão, se levantou.

Perguntou ao velho quem ele era
com um passo que se afasta.
Ele respondeu que era um vendedor de alegria,
mas que para ele fazia de graça.

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